Coragem para Viver: suicídio e autoestima no romance
Lançamento da Editora Vida e Consciência, Coragem para Viver foi escrito por Marcelo Cezar e inspirado pelo espírito Marco Aurélio. Um dos temas centrais do livro é a questão do suicídio. O romance conta histórias de diversos personagens que se entrecruzam à medida que a trama se desenrola, com poucos conceitos espiritualistas explícitos: o forte da obra é o enredo.
Como a história começa
A narrativa começa no início dos anos 90 e depois salta para os dias atuais. Celina é uma dona de casa pacata e submissa, casada com o truculento Rodinei, e mãe de Tales, de 10 anos, e de Júlia, de 4. Ao ouvir uma conversa entre o marido e o filho, na qual Rodinei diz não ter nenhum respeito por ela, Celina decide colocar fim na própria vida, acreditando que assim estaria punindo o marido.
O que ela não imaginaria é que logo ele estaria casado novamente e que seus filhos a esqueceriam. É esse descompasso entre a intenção e o resultado que sustenta a reflexão do livro sobre culpa e autoestima.
A família Castilho e o dinheiro
Além da história de Celina, o romance acompanha a rica família Castilho, composta pelo casal Mário e Angelita e pelos filhos Hélio e Valdir. Mário Castilho enriqueceu trabalhando com caixa dois em campanhas eleitorais. Hélio é seu sucessor e Valdir é o submisso da família.
Valdir engravida Mara, casa-se com ela, mas a moça se afunda nas drogas e não quer nem ao menos conhecer seu bebê, Rafael. Desiludido, Valdir acaba se envolvendo com Noeli, babá de Rafael, e é ela quem cria o menino. Logo Mário morre e Helinho assume o controle dos negócios da família, mostrando-se uma pessoa sem escrúpulos.
Personagens e funções na trama
O romance trabalha com um elenco grande, e boa parte do efeito vem do contraste entre trajetórias. Estes são os núcleos que estruturam a leitura.
| Personagem | Trajetória |
|---|---|
| Celina | Desencarna por suicídio e acorda em uma colônia espiritual |
| Rodinei | Marido truculento que se recasa pouco depois |
| Valdir | Filho submisso que cria Rafael com Noeli |
| Rafael | Rapaz sem vontade própria nos dias atuais, namora Júlia |
| Leda | Médium de grande sensibilidade, aprendeu a se respeitar |
Nos dias atuais, Rafael aparece como um rapaz parecido com o pai, sem vontade própria, sem motivação e acomodado. Namora Júlia, a filha de Celina, uma moça com mente próspera, animada e cheia de sonhos. Tales formou-se em letras, é homossexual assumido e namora o médico Reginaldo.
O plano espiritual e o Vale dos Suicidas
Celina está em uma colônia espiritual, acreditando que havia desencarnado havia apenas três meses. Sua melhor amiga é Mara, que foi assassinada ainda na primeira temporada da trama.
Um trecho certamente polêmico se refere ao famoso Vale dos Suicidas, citado na obra Memórias de um Suicida, de Yvone Pereira. Em conversa com Nena, Celina comenta que acredita que deve ter ido ao vale, mas não se recorda, e Nena revela que o local não existe mais como citado nos livros mais antigos. Há mais de trinta anos, antes mesmo de sua morte, o local já havia sido visitado por arquitetos do astral superior para ser reorganizado e revitalizado, porque tudo se transforma para melhor no universo. Os espíritos ali alojados receberam ajuda, e alguns foram encaminhados para postos de tratamento.
Autoestima como eixo de estudo
Além da questão do suicídio, os autores trabalham muito a autoestima, enfatizando que é preciso se amar e se dar valor, se respeitar e seguir adiante sem medo das mudanças. Uma personagem muito interessante nesse aspecto é Leda, prima de Noeli.
Ela é médium de grande sensibilidade e adivinha a maioria das situações que acontece ao seu redor. Muitas vezes vai parecer uma pessoa fria e egoísta, mas na verdade Leda aprendeu a se respeitar. A abordagem do tema nesta obra é bem interessante e mexe com o leitor.
- Observe como a trama trata a culpa de Celina, que acredita ter punido o marido quando puniu a si mesma.
- Acompanhe a passagem sobre a reorganização do Vale dos Suicidas, que revisa uma imagem antiga.
- Use a personagem Leda para discutir a diferença entre frieza e autoestima bem resolvida.
- Compare a trajetória de Rafael com a do pai, que é o ponto em que herança e escolha se separam.
Entretenimento com fundo de estudo
Este é o segundo livro de Marcelo Cezar lido pelo resenhista, depois de Treze Almas. A avaliação registrada é de que Coragem para Viver é uma obra mais para entretenimento do que para estudo, com um linguajar chulo em alguns diálogos entre personagens, relevado porque o enredo é bom.
A diagramação é impecável, a fonte é confortável e o volume tem 412 páginas. Para quem estuda o tema do suicídio na literatura espírita, o livro serve como porta de entrada narrativa, e não como fonte doutrinária, o que muda o modo de aproveitá-lo.
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